De Minsk a Chernobyl de carro, no inverno: como foi cruzar a fronteira entre Bielorrússia e Ucrânia
Como foi dirigir de Minsk, na Bielorrússia, até Chernobyl, na Ucrânia, em janeiro de 2017: nevasca, fronteiras onde ninguém falava inglês e 12 horas de estrada.

Fomos de carro de Minsk, na Bielorrússia, até Chernobyl, na Ucrânia, em pleno inverno, e cruzamos a fronteira de madrugada. Precisa de coragem: foi uma loucura, mas valeu a pena, e faríamos tudo de novo.
Fomos em janeiro de 2017, antes da guerra de 2022 entre Ucrânia e Rússia: hoje a fronteira está fechada e Chernobyl não recebe turistas.
Aqui contamos como é dirigir nas estradas da Bielorrússia com neve (uma ida que calculamos em 6 horas e levou 12), como foi passar pelas fronteiras dos dois países sem ninguém falar inglês e o que aprendemos no caminho.
Quando fomos: janeiro de 2017, com neve e frio de 31 graus negativos
Fizemos esse caminho de 3 a 5 de janeiro de 2017, no meio de uma viagem pelo Leste Europeu, que passou por Tallinn e Riga. Saímos de Minsk na noite de 3 de janeiro, uma terça-feira, fizemos o passeio em Chernobyl no dia 4 e voltamos na mesma noite, chegando a Minsk de madrugada. No dia 6, seguimos de avião para Varsóvia.
Era a semana entre o Ano Novo e o Natal ortodoxo (7 de janeiro), e janeiro é o mês mais frio da região. Pegamos neve o caminho inteiro e temperaturas que chegaram a 31 graus negativos.
Por que fomos de Minsk a Chernobyl de carro
Estávamos em Minsk, a capital da Bielorrússia, e precisávamos estar em Chernobyl, na Ucrânia, às 10 da manhã do dia seguinte, para fazer o tour (se quiser saber como foi, leia como foi visitar Chernobyl e Pripyat). A região vivia um momento de tensão: em 2014, um avião de passageiros da Malaysia Airlines tinha sido derrubado por um míssil no leste da Ucrânia, onde o conflito continuava. Por isso, preferimos ir por terra. Afinal, eram só 400 km.
Alugar um carro em Minsk e pegar a estrada
O primeiro passo foi alugar um carro. Pegamos um com todos os equipamentos de segurança necessários, porque fazia 31 graus negativos e caía uma tempestade de neve como eu nunca tinha visto.
Pelos 400 km de distância, calculamos umas 5 ou 6 horas de estrada, o que nos daria algumas horas para dormir num hotel simples que tínhamos reservado perto do ponto de encontro do passeio. No fim, a ida levou 12 horas, e não conseguimos dormir nem 40 minutos antes do passeio, que ainda seria seguido de mais 12 horas de volta para Minsk. Parece loucura, e foi, mas valeu a pena.

A estrada da Bielorrússia, para nossa surpresa, era excelente, sem buracos nem nada do tipo. A única dificuldade na ida foi a neve, que caía sem parar e cobria o asfalto. Havia pouquíssimo movimento, quase só caminhões, e tínhamos que seguir o rastro dos poucos carros para não perder o controle do volante, o que nos fez perder muito tempo.
Tanques e trincheiras no meio do caminho
A estrada também teve suas surpresas. Em certo ponto, apareceu um tanque de guerra no canteiro. Paramos para ver o que era: uma exposição ao ar livre num antigo ponto de controle do exército, com tanques, trincheiras e canhões antigos, tudo aberto, para andar e ver de perto.

Como foi cruzar a fronteira entre Bielorrússia e Ucrânia
As passagens pela fronteira hoje rendem boas histórias, mas na hora foram tensas. Tínhamos lido relatos de guardas que tentavam se aproveitar de turistas: diziam que a câmera fotográfica precisava de uma autorização especial e, como o turista não tinha, ficavam com ela. Por isso, ficamos atentos o tempo todo, pesquisamos bastante antes e levamos salvas as informações de que poderíamos precisar. Não tivemos nenhum problema com isso.
O curioso é que ninguém, em nenhum dos 4 postos de fronteira por onde passamos, falava inglês. Eles só falavam russo, bielorrusso ou ucraniano, línguas que não falamos. Tudo se resolveu com mímica, documentos e a boa vontade de alguns, que mudavam de humor quando viam o passaporte brasileiro. As únicas palavras que entendíamos eram “Neymar” e “Ronaldinho”. Salvos pelo futebol.
Em outro momento, ainda na Bielorrússia, holofotes se acenderam de repente na estrada. Vimos barreiras com pontas para furar pneus e militares com fuzis AK-47 vindo na nossa direção. Paramos o carro, abrimos o vidro e eles começaram a falar numa língua que não conseguíamos identificar. De novo, mímica, documentos e futebol. Mesmo sem entender as palavras, entendemos o recado: estávamos entrando numa área proibida, a zona de exclusão de Chernobyl (que também tem um lado bielorrusso), e precisávamos voltar quase 200 km para pegar a estrada certa.
O Waze e o Google Maps já existiam, mas não tínhamos internet no celular fora do Wi-Fi naquela região, então dependíamos do GPS alugado com a locadora, que estava desatualizado. Esse erro custou caro: andamos 200 km pelo caminho errado e tivemos que voltar os mesmos 200 km, e os 400 km da viagem viraram quase 800.
Do lado ucraniano, a viagem ficou bem mais difícil. A diferença para a Bielorrússia aparecia logo na estrada: muito mal cuidada, cheia de buracos e sem iluminação, o que era um problema para quem já dirigia havia quase 10 horas. A distância da fronteira até o hotel era pequena, mas levou muito tempo por conta da qualidade das estradas. Também tivemos que passar por vários pontos de controle do exército, bem menos amistosos, e explicar o que estávamos fazendo ali no meio da madrugada dava trabalho.

A volta para Minsk: sem gasolina e com uma carona inesperada
Depois de 12 horas dirigindo e 40 minutos de sono, fomos para o passeio em Chernobyl. O carro ficou no hotel, uma casinha improvisada, onde a agência nos buscou. No fim do dia, voltamos para pegá-lo e encarar o caminho de volta para Minsk. Como já conhecíamos as dificuldades, estávamos mais tranquilos, mas a volta ainda teve dois sustos.
O primeiro foi a gasolina. Segundo o painel do carro, tínhamos autonomia para 25 km, e o posto mais próximo ficava a 20 km. Pela conta, tinha que dar, então colocamos o posto no GPS e fomos. Chegando lá, não havia posto nenhum: de novo, o GPS desatualizado. Sobravam 5 km para achar um posto numa cidade do interior da Ucrânia, já de noite. Rodamos sem achar nada, até o carro avisar que restava gasolina para apenas 1 km. Paramos, descemos no meio da nevasca e começamos a procurar ajuda, até encontrar um taxista que, na base da mímica, entendeu o problema, nos levou até um posto próximo e colocou gasolina para nós. Foi um anjo. Problema resolvido, voltamos para a estrada.
O segundo foi na fronteira. Na saída da Ucrânia, primeiro havia um ponto de controle inicial, onde entregavam um papel com o número de passageiros do carro. Uns 2 km depois vinha o controle de fronteira de fato, com entrega de documentos e vistoria. Num desses pontos iniciais, uma mulher sozinha, com uma mala, pedia carona. Não queríamos dar: quem era ela, como tinha chegado ali e o que estava carregando? Já tínhamos problemas suficientes. Até que um soldado abriu o nosso carro e a colocou lá dentro. Não entendemos nada: não sabíamos o que fazer com ela nem até onde ela ia.
Sem muita alternativa, seguimos. A mulher ficou completamente muda no banco de trás, no meio da noite e da nevasca. Parecia cena de filme de terror. Quando chegamos ao controle de fronteira, ela abriu a porta, sem dizer nada, e saiu correndo. A minha reação foi pular para o banco de trás e revirar o carro, para ver se ela tinha deixado alguma coisa ilegal e se estava nos usando como mula sem que soubéssemos. Não encontramos nada, seguimos viagem e nunca mais a vimos. Até hoje não sabemos bem o que aconteceu, mas, pelo jeito, era só uma carona mesmo.
Chegamos ao hotel em Minsk depois de quase 2 dias acordados e 24 horas ao volante. Desmaiamos e só acordamos no dia seguinte, para devolver o carro.
Dicas para cruzar uma fronteira com carro alugado
Para quem quer fazer uma viagem parecida, ficam algumas dicas:
- Sempre que for cruzar uma fronteira com um carro alugado, avise a locadora, porque ela precisa emitir um documento que autoriza a saída do carro (sem ele, você pode não conseguir passar). Na saída da Bielorrússia, por exemplo, pediram um formulário de um tipo específico de seguro do carro. Tínhamos seguro, mas não aquele formulário, e tivemos que comprá-lo na hora, por menos de 100 dólares. Até hoje não sabemos se ele era mesmo obrigatório ou se foi uma forma de tirar dinheiro de turista. Ainda bem que deu para resolver.
- Não confie 100% na locadora. Pesquise por conta própria o que cada país exige, porque nem sempre ela tem todas as informações, ainda mais em fronteiras por onde pouca gente passa.
- Tenha internet no celular ou baixe um tradutor e os mapas off-line da região, para ajudar na comunicação e não depender do GPS da locadora.
- Imprima todos os documentos de que pode precisar. Os oficiais da fronteira ainda preferem ver papel, e assim você não depende da bateria do celular.
- Leve o mínimo de coisas, para facilitar a revista. Nós pagamos uma diária do hotel em Minsk sem dormir lá, só para deixar as malas. Na hora da revista, só havia 2 mochilas para olharem, o que agilizou bastante as coisas, bem diferente do que seria com duas malas grandes cheias.
Texto de Thiago Braga. Quem somos e como escrevemos. Siga no Instagram, TikTok e YouTube.