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Chernobyl e Pripyat: como foi visitar a zona de exclusão no inverno

Ucrânia ·Escrito em · Atualizado em

Nosso dia em Chernobyl e Pripyat em janeiro de 2017, debaixo de neve: o roteiro, quanto custou e como era chegar lá. Hoje a zona está fechada a turistas.

Roda-gigante abandonada do parque de diversões de Pripyat, na zona de exclusão de Chernobyl

Uma mistura de sentimentos poderia descrever o que é visitar Chernobyl e Pripyat. Ao mesmo tempo em que você sente arrepios por estar no local de uma das maiores tragédias do mundo, com detectores de radiação apitando como sinal de alerta, a beleza natural que cerca o lugar e a demonstração de poder da natureza são de deixar qualquer um de boca aberta.

Fomos antes da guerra de 2022 entre Ucrânia e Rússia: hoje a zona está fechada para turistas.

Local em que ocorreu o maior acidente nuclear da história do planeta, que deixou 30 mortos na época (2 na explosão e 28 por radiação nos meses seguintes) e, segundo estimativas da ONU, até 4 mil mortes ao longo dos anos, estava disponível para visitação.

Para quem não sabe, Chernobyl fica na Ucrânia, bem próximo da fronteira com a Bielorrússia.

Quando fomos: Chernobyl debaixo de neve, em janeiro de 2017

Fomos em janeiro de 2017, entre o Ano Novo e o Natal ortodoxo (7 de janeiro), que na Ucrânia eram feriados. Janeiro é o mês mais frio da região: as máximas ficam perto de 2 graus negativos e as mínimas perto de 8 negativos, e pegamos tudo coberto de neve.

A história de Chernobyl e Pripyat

O acidente, que envolveu a explosão de um reator nuclear (o de número 4) da antiga União Soviética, ocorreu em 1986, deixou rastros de radiação em praticamente toda a Europa e obrigou a evacuação de diversas cidades e vilarejos.

Na época, apesar de ainda haver radiação no local (em alguns pontos, ainda alta), podia-se visitar não somente Chernobyl, mas também Pripyat, a cidade modelo do socialismo que foi evacuada de um dia para o outro, cujos moradores jamais puderam retornar, e que hoje é dominada pela natureza.

Pripyat era considerada uma cidade exemplo dentro da União Soviética. Lotada de jovens (a média de idade era de 26 anos), escolas, pouca desigualdade, trabalho para todos. Era muito usada nas propagandas soviéticas para mostrar quanto o socialismo podia dar certo.

No dia seguinte ao acidente do reator, toda a população de Pripyat foi alertada e orientada a entrar em ônibus de evacuação o mais rápido possível, sem possibilidade de se preparar, e o mesmo aconteceu depois com os vilarejos próximos. A promessa era de que em poucos dias poderiam voltar. É por isso que, ao visitar as instalações, você ainda consegue ver muitos brinquedos deixados para trás, salas de aula com material escolar e escritos na lousa, pertences pessoais etc. Ninguém se preocupou (e também não pôde) em levar tudo, pois achavam que iam voltar. Nunca aconteceu.

Com o tempo, a natureza tomou conta de tudo: as árvores passaram a destruir os prédios, invadir casas, tomar os caminhos e muito mais. A radiação permanece no local, principalmente no solo e nas árvores. Por isso, foi criada uma zona de exclusão gigantesca entre a Ucrânia e a Bielorrússia (cerca de 2.600 km² só do lado ucraniano), onde é proibido morar e a área é altamente controlada pelo exército.

Durante o passeio, andamos com um dosímetro, que é um medidor de radiação. Durante todo o percurso a pé, existe uma trilha específica que temos que fazer, que foi descontaminada para os tours e também para o deslocamento das autoridades. Bastava você colocar o dosímetro um pouco fora do caminho que ele já começava a apitar por conta da radiação.

Detector de radiação amarelo deixado sobre a neve O dosímetro que acompanha o grupo durante o passeio.

Existem muitos seriados e documentários interessantes sobre o assunto. Para quem quiser se aprofundar hoje, sugerimos a minissérie Chernobyl (HBO, 2019), o documentário Chernobyl: The Lost Tapes (2022), o filme Chernobyl 1986 (2021), lançado pela Netflix, e o livro Vozes de Tchernóbil, da Svetlana Aleksiévitch, Nobel de Literatura em 2015.

Letreiro de concreto com o nome de Pripyat e o ano de 1970, na neve O letreiro na entrada de Pripyat, cidade fundada em 1970.

Como é o passeio por Chernobyl e Pripyat

Estivemos no inverno, e as paisagens ficam ainda mais impressionantes, com tudo embaixo de neve e raposas e cachorros selvagens acompanhando cada movimento que o grupo fazia. Uma história curiosa é a dos lobos: dizem que a população aumentou muito depois do acidente (um estudo de 2015 encontrou sete vezes mais lobos na zona do que em reservas vizinhas sem contaminação). Provavelmente por conta da falta de intervenção humana, mas não deixa de ser curioso como sobrevivem à radiação.

Cachorro na neve, na zona de exclusão de Chernobyl Os cachorros acompanharam o grupo boa parte do dia.

Durante a manhã, na área de Chernobyl, depois de passar por todos os controles do exército local, o passeio engloba vilarejos, creches e teatros abandonados, a sede do corpo de bombeiros que atendeu a ocorrência no dia da explosão do reator nuclear, o famoso “cemitério da humanidade” (um cemitério simbólico, onde cada cruz representa uma cidade ou vilarejo inteiro que teve de ser abandonado por causa do risco de contaminação; são dezenas e dezenas) e, claro, o sarcófago que fizeram para interromper a emissão de radiação.

O sarcófago é uma estrutura de concreto e aço que foi criada para tentar conter a radiação gerada pela explosão do reator. É tanta radiação que não existe forma de limpá-la ou retirá-la, muito menos no epicentro da explosão. A solução foi tampar com uma estrutura especial. E é tanta radiação que, com o tempo, essa estrutura vai se desgastando. Aí, um fundo internacional, com dinheiro de mais de 40 países e administrado pelo Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, financiou a construção de uma nova estrutura por cima da anterior. Em novembro de 2016, dois meses antes da nossa visita, essa nova estrutura de aço tinha sido colocada por cima do sarcófago antigo, e é ela que aparece nas fotos.

Monumento aos bombeiros que atenderam o acidente, em Chernobyl O monumento aos bombeiros que atenderam o acidente.

Beliches abandonados em uma creche da zona de exclusão Uma das creches abandonadas.

Arco de aço sobre o reator 4 da usina de Chernobyl, na neve O arco novo sobre o reator 4, chamado oficialmente de Novo Confinamento Seguro e instalado dois meses antes da nossa visita. Também é chamado de sarcófago.

No período da tarde, saímos de Chernobyl e fomos para a área de Pripyat, onde visitamos lugares como a piscina do complexo esportivo, a antiga praça principal da cidade, o antigo hotel de luxo e, claro, o famoso parque de diversões, com a enorme roda-gigante e o carrinho bate-bate. No deslocamento de um ponto para outro, é possível ver os antigos prédios sendo tomados pela natureza, em especial pelas árvores, que chegam inclusive a derrubar prédios.

Piscina vazia e abandonada em Pripyat, com neve no fundo A piscina Azure, de Pripyat, vazia e tomada pela neve.

Carrinhos bate-bate abandonados e cobertos de neve no parque de Pripyat Os carrinhos bate-bate do parque de diversões.

A visitação interna dos prédios é controversa. Alguns dizem que pode, outros não, mas a impressão que fica é que é tudo uma questão de segurança. Isso porque as instalações estão em péssimo estado de conservação, dado o tempo que passou, a destruição pela natureza e a ausência de manutenção (por motivos óbvios).

Ah! Se tiverem um guia solícito, sorte (e tempo sobrando), ao final do dia peçam para visitar o antigo radar Duga, que fica nas imediações e vigiava mísseis que poderiam ser lançados contra a União Soviética. O tamanho é impressionante: cerca de 150 metros de altura e 700 de comprimento.

Quanto tempo dura o passeio a Chernobyl

O passeio dura 1 dia inteiro, começando pela manhã e retornando somente ao final da tarde. Os tours normalmente incluem um almoço em um hotel dentro da zona de controle de Chernobyl, mas não esperem nada de mais: como podem imaginar, o acesso a alimentos é bem limitado.

Na saída da zona, todo mundo passa por um detector de radiação. O curioso é que, se você apitar, eles testam item por item para descobrir o que está com radiação. Normalmente são as botas, por causa do solo. E, se isso acontecer, a bota tem que ficar lá. No nosso grupo, deu tudo certo e ninguém precisou deixar nada para trás.

Quanto custou o passeio a Chernobyl

Aqui vai depender de muitas variáveis, como de onde você vai sair, se vai fazer um tour privado ou em grupo etc. No nosso caso, contratamos o passeio em grupo e encontramos o guia nas imediações de Chernobyl, e o preço da agência saiu 100 dólares por pessoa (em 2017). O preço pode variar bastante dependendo de onde você sai. Como nós não usamos transfer, porque encontramos a agência bem perto da entrada de Chernobyl, saiu em conta.

Onde fica Chernobyl e como chegar (até saindo de Minsk)

A área de visitação fica na Ucrânia, bem próxima da fronteira com a Bielorrússia e a cerca de 100 km da capital, Kiev, em linha reta (umas 2 horas de estrada).

Primeiro de tudo, recomendamos fortemente contratar uma agência séria para organizar o passeio, pois o controle na região, feito pelo exército, é muito forte e, acredite, nenhum dos soldados fala inglês, então você pode imaginar a dificuldade de conseguir liberação. Além disso, é preciso uma autorização especial do governo para poder entrar depois do controle do exército, mas, se for com uma agência séria, você nem vai precisar se preocupar com isso, já que eles levam tudo pronto.

Normalmente, a maioria das pessoas faz o tour saindo de Kiev, mas você consegue planejar fazer esse tour de qualquer lugar em que estiver, desde que esteja no ponto de encontro combinado com a agência. Tanto é verdade que eu queria muito conhecer o lugar, mas a Ucrânia não fazia parte dos meus planos. Então, como Minsk, na Bielorrússia, estava, aluguei um carro e fui até a Ucrânia por conta própria: uma experiência certamente memorável (e uma loucura ao mesmo tempo).

Se estiver em Kiev, como há inúmeras agências que fazem o tour, certamente tudo ficará mais fácil, mas, reforço, não se preocupe se o seu roteiro não incluir a Ucrânia. Ainda assim é possível conhecer esse local espetacular, se tiver a agência certa. É como na Coreia do Norte, outro lugar que só se visita com agência.

Agência que usamos em 2017: SoloEast Travel

Como comentei, há inúmeras empresas que organizam esse passeio, mas deixo aqui a recomendação de uma especial, a que usamos em 2017: a SoloEast Travel.

Eu fiz um trajeto maluco para conseguir ir da Bielorrússia até a Ucrânia, e a ajuda deles foi essencial para que tudo desse certo. Sem cobrar 1 centavo a mais, me ajudaram o tempo todo, com todas as dicas que vocês podem imaginar, inclusive quando ficamos perdidos no meio da madrugada, embaixo de uma nevasca e sem gasolina no carro. De verdade, recomendação valiosa!

Texto de Thiago Braga. Quem somos e como escrevemos. Siga no Instagram, TikTok e YouTube.