Coreia do Norte: como foi visitar Pyongyang, com alguns mitos e verdades
Nossa viagem a Pyongyang em fevereiro de 2018: como funciona o tour, quanto custou, regras para turistas e o roteiro. Hoje o turismo está quase todo suspenso.

O que já posso afirmar é que 80% do que você vê escrito por aí na internet sobre a Coreia do Norte, apesar de não ser inteiramente mentira, é elevado ao extremo. Claro que o país é mesmo extremamente fechado e, de fato, é uma realidade à parte, mas também não é nenhum monstro de sete cabeças para os turistas. É possível, sim, visitar: você só precisa aceitar e, literalmente, se curvar às regras deles. Se não estiver disposto a seguir as regras, não vá.
Fomos em fevereiro de 2018. Hoje o país está fechado para quase todos os turistas.
Sim, já que estávamos pela Ásia, resolvemos conhecer Pyongyang, a capital do que é considerado o país mais fechado do mundo e, para melhorar, em plena tensão militar, com ameaça de explosões nucleares tanto por parte deles como dos Estados Unidos. Além disso, era a comemoração do Ano Novo Lunar e também do aniversário do “general” Kim Jong-il, cujo dia é chamado de “Day of the Shining Star” (Dia da Estrela Brilhante).
Por ser uma época bastante festiva, conseguimos acompanhar muitos eventos populares de rua, como o famoso mass dance, a queima de fogos na Torre Juche, a exposição de flores Kimjongilia etc.
Além das informações de sempre dos nossos reviews, deixamos no fim o roteiro completo do que visitamos em Pyongyang. Quando os outros textos sobre a Coreia do Norte saírem, leiam este antes, para nada ficar sem contexto.
Quando fomos: Pyongyang no Ano Novo Lunar, em fevereiro de 2018
Fomos de 15 a 17 de fevereiro de 2018. O dia 16 foi ao mesmo tempo o Ano Novo Lunar e o aniversário de Kim Jong-il, um dos principais feriados do país, por isso a cidade estava cheia de eventos de rua, flores e fogos. Fevereiro é frio em Pyongyang: as máximas ficam perto de 3 graus e as mínimas perto de 8 negativos, com céu quase sempre aberto.
Como funciona a viagem à Coreia do Norte
Você não escolhe absolutamente nada, simples assim. Eles é que vão escolher o seu voo (ou trem), o seu hotel, onde e o que você vai comer, quais pontos turísticos vai ver, com quem vai falar e por onde vai andar.
Você deve estar sempre acompanhado de ao menos dois guias norte-coreanos e em hipótese alguma pode ficar sozinho na rua. Terminou o passeio do dia e voltou para o hotel? É lá que vai ficar até o dia seguinte, quando seus guias vierem te buscar para sair de manhã.
Na prática, é estilo big brother: nos três dias, não houve um momento sequer em que ficamos sozinhos na rua. Os guias estão de olho no cumprimento das regras, claro, mas o engraçado é que conseguem fazer essa vigilância de forma bem amigável. Perguntavam como é o Brasil, sobre a nossa família e, no último dia, uma das guias até cantou uma música em nossa homenagem.
A contagem do grupo também é levada a sério. No passeio de metrô, já estávamos todos dentro do vagão para ir a outra estação quando a contagem não bateu: um turista tinha se “perdido”. O trem, cheio de norte-coreanos, simplesmente não saiu do lugar. Só seguiu quando ele apareceu.
Sobre fotografias, só pode fotografar o que eles permitem, e tem toda uma regra especial para isso (veja as curiosidades abaixo).
Quantos dias ficar em Pyongyang
Nós ficamos 3 dias e 2 noites, mas é possível montar da forma que “você quiser” (leia-se: que eles permitam). Há pacotes fechados, inclusive com mais dias e mais cidades, mas achamos que esse tempo foi suficiente. Se quiser, há a possibilidade de fazer um tour exclusivo, em que você tem uma certa “flexibilidade”.
Tem até a famosa Maratona de Pyongyang, para quem gosta de correr.
Quanto custou o tour a Pyongyang
O pacote que fizemos custou salgados 1.000 euros (em 2018). Pelo menos, isso inclui a passagem aérea de ida e volta entre Pequim e Pyongyang, o visto e toda a documentação, o hotel e todas as refeições.
Só não estão incluídos gastos pessoais (por exemplo, souvenirs) e passeios extras que eles oferecem lá, de acordo com a época do ano.
Como chegar à Coreia do Norte e planejar a viagem
Primeiro de tudo, apesar de ser possível planejar tudo “sozinho”, sugerimos fortemente que não faça isso. Primeiro, porque imagine você tendo que providenciar o seu visto norte-coreano e contratar dois guias norte-coreanos sem nenhum suporte. Diria que é praticamente impossível para o turista comum.
Além disso, o país tem MUITAS regras que, se você não seguir, pode se dar muito mal (vejam o caso do estudante americano Otto Warmbier, preso em 2016, acusado de tirar um cartaz de propaganda política do hotel). E não vá achando que são coisas “básicas” e normais e que bom senso é suficiente. Não são! Só para terem uma noção, até a forma como você dobra um jornal é regulada e, se não fizer certo, pode ter problemas que podem até ser considerados um atentado direto ao “marechal” Kim Jong-un (nem preciso falar que isso não é uma coisa boa, né?), já que a sua imagem nunca pode ser violada.
A primeira coisa que você precisa saber é que tem duas opções para chegar lá: pela China ou pela Rússia, os dois países com quem a Coreia do Norte tem uma parceria forte de verdade. É justamente por isso que os voos, os trens e os tours só saem de lá. Nos dois países você encontra agências que organizam esse tour. É como em Chernobyl e Pripyat, outro lugar que só se visita com agência: sem ela, você nem chega perto.
É importante escolher uma que tenha bastante tradição no passeio, para ter certeza de que sabe todas as regras. A que utilizamos foi a Koryo Tours (koryogroup.com) e recomendamos muito. Apesar de não ser a mais barata, o atendimento deles é impecável antes e durante o tour e, além disso, são referência quando o assunto é Coreia do Norte. Por exemplo, um dos fundadores da empresa, Nick Bonner, foi um dos diretores de Comrade Kim Goes Flying (2012), o primeiro filme de ficção feito em parceria entre a Coreia do Norte e o Ocidente, e o gerente-geral, Simon Cockerell, já tinha ido para lá mais de 180 vezes e é conhecido por sempre “inaugurar” novos destinos liberados pela Coreia do Norte. O líder do tour, Greg, que nos acompanhou na viagem, é muito ponta firme e nos ajudou em tudo o que pôde, com diversas dicas e explicações.
Se escolher a Koryo, depois de fechar o passeio, eles enviam um material completo sobre a Coreia do Norte e também providenciam tudo de que você vai precisar (o visto, por exemplo). Depois disso, eles marcam um briefing em Pequim para o dia anterior à viagem, quando explicam com mais detalhes tudo o que é importante (trajes, como tirar fotos, qual é o itinerário etc.) e entregam o seu visto. Sobre a roupa, a orientação foi simples: nada com símbolo religioso ou referência aos Estados Unidos e, claro, roupas mais sérias, nada muito aberto. Para nós, como material prévio, enviaram até um vídeo ensinando a dançar o mass dance, caso alguém quisesse participar no dia… O trabalho deles é impecável e com certeza vocês não vão se arrepender.
O Grande Monumento de Mansudae.
Mitos, verdades e regras para turistas na Coreia do Norte
Uma guarda de trânsito diante da Grande Casa de Estudos do Povo, na Praça Kim Il-sung.
Vamos a algumas curiosidades que descobrimos lá:
- Os guias recomendam não chamar o país de “Coreia do Norte”, porque soa como ofensa. Para eles, existe apenas uma Coreia, ou seja, a deles. Eles chamam o país de Coreia, DPRK (Democratic People’s Republic of Korea) ou “Our Country”.
- Você jamais pode tirar uma foto ou fazer um vídeo que “viole” a imagem dos líderes do país (o “presidente” Kim Il-sung, o “general” Kim Jong-il e o “marechal” Kim Jong-un). Isso significa que a foto deve ser sempre de frente, englobando a imagem inteira, ou seja, sem cortar nenhuma parte, e sem um ângulo de mais de 45 graus: foto de lado ou de costas, jamais.
- Se for tirar uma foto ao lado de uma estátua, as mãos devem estar sempre juntas ao corpo, não pode estar de óculos nem com algum objeto na cabeça, e o casaco deve estar fechado.
- Mesmo depois da divisão das Coreias, durante muito tempo a capital oficial da Coreia do Norte continuou sendo Seul (só em 1972 passou a ser Pyongyang).
- Pouquíssimas pessoas podem entrar em Pyongyang, e isso inclui os norte-coreanos: é preciso uma autorização especial do governo, e há postos de controle em todos os acessos à cidade.
- Não tem internet para turistas.
- Você fica desconectado do mundo. Dá para mandar um cartão-postal direto para casa: nós mandamos, mas ele só chegou quando já tínhamos voltado ao Brasil. E, claro, tomando cuidado com o que escreve, porque ele vai ser lido. Os guias também orientam sobre o que pode.
- O passaporte fica com os guias o tempo todo e só é devolvido na volta.
- Dá para levar o celular, mas com cuidado: alguns tipos de conteúdo são proibidos, e os eletrônicos podem ser inspecionados pelos militares. Nós preferimos deixar o celular em Pequim e levar só a câmera, sem nada salvo.
- O Hotel Yanggakdo, onde ficamos, tem um quinto andar que não aparece no painel do elevador e onde os hóspedes não podem entrar. A teoria mais contada é que ali funciona a vigilância dos quartos: turistas que entraram escondidos dizem ter visto salas trancadas, cartazes de propaganda e até equipamentos de escuta. Já as agências dizem que é só um andar de serviço, como em qualquer hotel. A gente conta mais no texto do hotel.
- É proibido usar o dinheiro deles, e também não aceitam cartão de crédito. Você sempre deve levar yuan, dólar ou euro para fazer compras nas pequenas lojas acessíveis aos turistas, que serão indicadas pelos guias.
O mass dance no aniversário de Kim Jong-il.
O metrô de Pyongyang.
Roteiro que fizemos em Pyongyang
Aqui você encontra tudo o que fizemos quando fomos para a Coreia do Norte, em 2018. Alguns detalhes, como o voo da Air Koryo, o hotel Yanggakdo, o cinema e a comida, ganharam textos próprios, que contam cada parte da viagem em detalhe. Comece pelo roteiro e depois explore tudo o que temos sobre a Coreia do Norte. Se tiverem dúvidas, escrevam pela página de contato, que a gente responde!
Primeiro dia
- Voo de Pequim para Pyongyang com a companhia norte-coreana Air Koryo, considerada por muitos a pior do mundo, e imigração em Pyongyang;
- Caminhada noturna na Praça Kim Il-sung, na Sungni Street e no Pyongyang Grand Theatre;
- Check-in e jantar no Hotel Yanggakdo (o famoso hotel em que o elevador pula o quinto andar);
- Cinema para assistir a Comrade Kim Goes Flying (era opcional).
Segundo dia
- Grande Monumento de Mansudae (estava muito cheio por causa do aniversário; fazer a reverência e comprar flores para deixar aos pés das estátuas era opcional) e Estátua de Chollima;
- Praça Kim Il-sung e mass dance;
- Museu da Guerra de Libertação da Pátria (Victorious Fatherland Liberation War Museum) e o navio-espião americano capturado USS Pueblo;
- Passeio de metrô e Arco do Triunfo;
- Golden Lane Bowling Alley;
- Torre Juche e Monumento à Fundação do Partido;
- Exposição de flores Kimjongilia;
- Lojas (livraria, mercado e souvenirs).
Terceiro dia
- Volta para Pequim com a Air Koryo.
O USS Pueblo, navio americano capturado em 1968 pela Coreia do Norte.
A exposição de flores Kimjongilia.
Os fogos do aniversário de Kim Jong-il.
Texto de Thiago Braga. Quem somos e como escrevemos. Siga no Instagram, TikTok e YouTube.