Hotel Yanggakdo: como foi se hospedar no hotel de Pyongyang que não tem o 5º andar
Como era o Hotel Yanggakdo, em Pyongyang, em 2018: um hotel parado no tempo, com elevadores que paravam em andares escuros e o mistério do 5º andar.

Do lado de fora, a arquitetura e o tamanho do Hotel Yanggakdo, em Pyongyang, fazem ele parecer de uma grande rede. Dentro, o lobby também impressiona. Mas, fora isso, a impressão que ficou foi outra: um hotel parado no tempo, com elevadores que paravam em andares escuros e um quinto andar que não aparece no painel.
Contamos com detalhes como é se hospedar no famoso hotel de Pyongyang, que “não possui” o quinto andar. Como comentamos no guia da Coreia do Norte, ao fechar a viagem, não tínhamos a liberdade de escolher o hotel onde ficaríamos (ele vinha incluído no pacote do tour). Hoje existem outros hotéis para turistas em Pyongyang, mas, pelo que vi, a maioria dos grupos ainda ficava neste enquanto o país estava aberto ao turismo.
Quando fomos
Ficamos no Yanggakdo por 2 noites, de 15 a 17 de fevereiro de 2018, na nossa viagem à Coreia do Norte. Chegamos a Pyongyang num voo da Air Koryo, vindos de Pequim.
Como é o Hotel Yanggakdo
São 47 andares, com um restaurante giratório no topo.

O check-in foi sem problemas. Quando chegamos lá, nossos guias norte-coreanos foram até a recepção, pegaram a chave do nosso quarto, nos entregaram e pronto. Nós não tivemos que lidar com nada na recepção, nem conversar com nenhum local.
Depois do check-in, tivemos 40 minutos para subir ao quarto, deixar as coisas e descer para jantar no restaurante do hotel. Foi aí que aquela primeira impressão começou a mudar.
O elevador que parava em andares escuros
Entramos no elevador e a primeira coisa que vimos foi que de fato não existe o botão do quinto andar. Já tínhamos lido sobre isso e queríamos confirmar: confirmado (mais abaixo, conto um pouco mais sobre esse mistério).
Por ora, deixamos isso de lado e apertamos o nosso andar (42), quando o elevador simplesmente parou no sétimo. Tudo estava escuro e não tinha ninguém lá: se visse só a foto daquilo, ia achar que era um prédio abandonado. Como o elevador não andava, resolvemos descer e pegar um dos outros 5 elevadores disponíveis.

Quando finalmente conseguimos chegar ao nosso andar, a coisa era totalmente diferente: iluminação, carpete, decoração, sem cheiro esquisito no ar. Tudo bem antigo, mas muito arrumado.
Na hora de descer para o restaurante, o elevador, de novo, parou no sétimo andar. Tentamos fazer a mesma coisa e pegar outro, mas nenhum estava funcionando. Ligamos a luz do celular e começamos a procurar as escadas. Não havia sequer uma luz acesa no andar, apenas muitas portas fechadas e muitas câmeras em cada esquina. Algumas portas que tinham cara de dar acesso à escada estavam fechadas com cadeado. Depois de andar um pouco, encontramos o elevador de serviço e conseguimos descer.
Andares para estrangeiros e para norte-coreanos
Comentamos com o nosso guia sobre o que aconteceu e ele foi direto: “Vocês não deveriam estar lá”. Depois explicou que, até perto do 30º andar, somente norte-coreanos podem ficar e não deveríamos ter ficado andando por ali. Os estrangeiros devem ficar restritos à parte mais alta do hotel. Em outras ocasiões em que o elevador parava de forma aleatória em outros andares, pudemos ver exatamente isso. Não existe padrão nenhum. Cada andar é moldado para o público que vai ficar ali: os andares de turistas são todos “modernos”, os para norte-coreanos não possuem estrutura diferenciada e outros andares sequer funcionam (como o sétimo). Parece que deixam os turistas no alto para dar a impressão de que o hotel está cheio, ou algo assim.
O que tem dentro do hotel
Depois do jantar, fomos explorar o hotel. Depois dos passeios do dia, é proibido sair dele sem os guias: o Yanggakdo fica numa ilha no meio do rio Taedong e é completamente cercado, então só saíamos no dia seguinte, com a presença do guia. Por isso, eles colocam tudo lá dentro: academia, boliche, karaokê, cabeleireiro e lojinha de souvenir. Dentro do hotel, a gente podia andar livremente.
O mistério do quinto andar do Yanggakdo
Sobre o “mistério do quinto andar”, não vamos ter a resposta. Por motivos óbvios, não quisemos nos arriscar a tentar chegar lá para ver. Há muitas teorias do que pode ser, mas, quando pesquisamos, encontramos alguns turistas que foram até esse andar em 2011, quando ainda não tinha nenhum caso de turista preso na Coreia do Norte (como o do estudante americano Otto Warmbier, preso em 2016 depois de um episódio neste mesmo hotel). Segundo o que contaram, eles teriam encontrado um monte de monitores, propaganda política, portas trancadas e muitas câmeras para reparo e, ao que tudo indica, aquilo lá seria uma central de monitoramento de vídeo e voz de tudo o que acontece dentro do hotel e dos quartos, por meio de gravadores e câmeras escondidas.
Não sei se acredito muito. Acho que, se fosse para fazer monitoramento de forma secreta, teria formas melhores de esconder essa estrutura do que simplesmente tirar um botão do elevador. Enfim, como esses turistas já deram entrevista para grandes mídias e o vídeo que fizeram parece ser autêntico, vocês podem ler o relato deles para tirarem as próprias conclusões.
O quarto e o restaurante giratório
Voltando para a estrutura do hotel… O quarto em que ficamos era até que espaçoso, mas com decoração extremamente antiga, assim como todo o restante do hotel (exceto a parte exterior e o lobby). As roupas dos funcionários, a decoração dos ambientes, tudo sempre remetendo a algo muito antigo.

Na última noite, resolvemos ir até o restaurante giratório para tomar uma cerveja (sim, dá para beber normalmente na Coreia do Norte!) e, quando chegamos lá, tomamos um susto. Parecia mesmo que tínhamos mudado de época.
Café da manhã no Yanggakdo
O café da manhã era servido prato a prato, assim como quase todas as refeições que fizemos na Coreia do Norte, e sempre era muita comida. Mas era tudo bastante estranho para o meu paladar: repolho, fatias de um embutido parecido com mortadela, ovo frito, tudo de qualidade duvidosa… A comida, no geral, foi bem difícil para mim.

O que achamos do Hotel Yanggakdo
De forma geral, a impressão que tivemos foi que eles tentam recriar um ambiente de luxo, mas não possuem a menor ideia do que estão fazendo. Tudo acaba ficando com cara de antigo e até antiquado. Talvez aquilo tudo tivesse sido chique em algum lugar do mundo, nos anos 60, mas hoje é meio cafona. Parece que ficaram parados no tempo.
Se você chegou a este texto sem ter lido o guia da Coreia do Norte, sugiro que dê uma olhada nele, para entender alguns pontos que comentamos aqui. Para ver como foi a chegada a Pyongyang, leia também como foi voar com a Air Koryo e passar pela imigração.
Texto de Thiago Braga. Quem somos e como escrevemos. Siga no Instagram, TikTok e YouTube.